Guerra e Paz é um grande clássico da literatura universal de Liev/Leon Tolstoi, publicado em 1867.

Um grande clássico que surpreende e que oscila entre períodos de paz e guerra, onde vemos a vida de diferentes personagens da alta sociedade russa.

Guerra e Paz

Confesso que iniciei a leitura desta obra com algum receio, devido não só ao número de páginas que esta tinha como também ao tema em si. Nunca fui muito ligada à história universal, e saber que o livro retrata as invasões napoleónicas na Rússia deixou-me apreensiva, contudo fui desafiada a ler este livro e assim começa esta aventura.

O meu objetivo é terminar o segundo volume da obra antes do final do ano e poder acompanhar os desenvolvimentos iminentes deste primeiro volume.

A edição que eu disponho do guerra e paz é uma edição bastante antiga editada em 1974 pela editora Circulo de Leitores, o que dificultou a possibilidade de “andar com o livro atrás” e lê-lo de uma forma mais rápida.

Como ler Guerra e Paz?

Numa fase inicial fui apontando num bloco de notas o nome dos personagens que o autor nos ía apresentando e a ligação entre as diferentes famílias de forma a conseguir-me orientar no desenrolar dos acontecimentos. Esta tarefa inicial foi importante uma vez que existe nomes de família semelhantes e o facto de serem russos torna-os ainda mais difíceis de diferenciar, temos por exemplo a família Kuraguine e a família Karaguine. Ao longo do livro começamos a familiarizarmo-nos com as diferentes famílias e personagens o que simplifica a identificação e permite manter o ritmo da leitura. 

Este livro inicia-se com a apresentação dos nossos protagonistas e das suas respetivas famílias, sendo estes pertencentes à nobreza Russa de São Petersburgo e de Moscovo.

Quem são os protagonistas desta obra?

Existem 4 famílias que na minha opinião irão fundamentar todo este primeiro volume – a família Kuraguine, a família Besukov, a família Bolkonski e a família Rostov. Dentro destas famílias temos as personagens míticas de toda a obra.

Na família Besukov temos Pedro, que nos é apresentado como um filho bastardo que estudou no estrangeiro e que tem ideias pouco convencionais e polémicas para os outros nobres até ao momento em que fica com toda a fortuna do pai e passa a ser o homem mais rico de toda a Rússia. Vemos uma personagem que ao longo do livro vai sofrendo alterações de personalidade e pensamento porque ora vive de acordo com o que a nobreza espera dele, ora vive com vontade de se afirmar como diferente e com ideias extremamente opostas ao pensamento da alta sociedade russa da época. Vai criar escolas e hospitais para os seus trabalhadores rurais de forma a emancipá-los e educá-los, dando-lhes assim a oportunidade de adquirirem cuidados que só estavam destinados à nobreza. 

Temos o André Bolkonski, que contrariamente a Pedro, é aceite na nobreza e defensor das ideias em vigor, alistasse à campanha militar contra os franceses, num cargo bastante promissor. Infelizmente esta personagem tem um ferimento na guerra, tendo sido dado como morto. Foi salvo e curado pela infantaria francesa, o que acabou por ser um ponto de viragem na sua impressão inicial e na vontade de permanência na guerra. Quando volta a casa encontra a mulher em trabalho de parto, acabando por morrer e deixar o André viúvo e com um filho recém-nascido que será educado pelo avô e pela tia paterna. Anos mais tarde perde-se de amores por Natacha pedindo-a em casamento contra a vontade do seu pai.

Da família Kuraguine quero destacar duas personagens – a Helena e o Anatole; A Helena é-nos apresentada como uma mulher lindíssima, aceite na sociedade Russa e que por insistência da sua família acaba por se casar com Pedro (o partido mais rico da Rússia) de forma a que este traga à família da mulher a estabilidade financeira que tinham perdido e a importância social que tentam manter. Helena é apresentada por Pedro como uma mulher fútil, adultera e pouco culta o que faz com que não corresponda a sua aceitação social àquilo que ela realmente sabe e consegue argumentar nas grandes noites de encontro da nobreza. Para mim é uma personagem essencial pois é a ligação de Pedro à nobreza, ele só é aceite entre os senhores mais nobres porque é “bem casado”.

Anatole é irmão de Helena, um pinga amores sem remendo que vai partindo corações por onde passa, é insurreto e a grande preocupação do seu pai que tenta a todo o custo dá-lo a casar a um bom partido para ganhar emenda. É uma personagem que fica grande parte da obra sem aparecer e quando volta às nossas páginas vem para criar o caos e estragar o que se está a compor.

No lado dos Rostov temos duas personagens essenciais – o Nicolau e a Natacha. Quanto ao Nicolau este é apresentado como o orgulho da família. Tal como André parte para a guerra e na sua primeira batalha cai por terra aparecendo momentos mais tarde no acampamento todo ensanguentado mas vivo. Este feito é importante para a subida promissora da personagem. As partes que mais gostei da guerra foram as que entravam esta personagem. As reflexões que Nicolau vai fazendo face aos acontecimentos que vivência, são para mim as mais interessantes. Nicolau vive uma paixão de infância com a prima Sónia, mas está condenado à não aceitação do casamento por parte dos seus pais uma vez que tal como a família Kuraguine, os Rostov estão a perder a fortuna que possuem e para conseguirem restituir esta devem casar os seus filhos com os partidos mais ricos. 

Natacha é a personagem que menos gostei ao longo do livro, embora reconheça a sua importância no decorrer do mesmo. É uma adolescente mimada e sem planos para o futuro. Vive uma grande oscilação de sentimentos por diversas personagens ao longo do livro o que me mexeu com os nervos, é uma personagem muito instável (embora seja próprio da idade).

O livro oscila entre os momentos de guerra (diferentes batalhas que vão travando contra Napoleão onde o general Kutuzov vai tendo um papel fulcral) e os momentos de paz e os enredos entre as personagens. 

Análise e opinião sobre acontecimentos da obra

Se leste até aqui e não gostas de “spoilers” esta próxima parte não é para ti e avança até ao final do texto!

Há várias partes que gostei no livro das quais quero dedicar as próximas linhas. A primeira parte que gostei no livro foi a ascensão social do Pedro na sociedade onde passa do bastardo do conde Bezukov ao herdeiro legítimo do mesmo. Para além da herança do pai fica também com o título deste e passa a ser considerado o melhor partido para as filhas solteiras, embora anteriormente ninguém quisesse saber dele. Achei o Pedro uma personagem muito influenciável e sempre descontente com o rumo dos seus acontecimentos.

A beleza de Helena não lhe era indiferente e apesar de saber que era um interesse apenas pela sua parte física, casou-se com ela. Nas primeiras páginas do livro vemos uma conversa entre Pedro e André onde o André diz ao amigo que se quer continuar a ser feliz que nunca se case porque a felicidade esfuma-se com o casamento e no caso do Pedro isso acontece. A mulher irá traí-lo com um amigo do irmão – Dolokov, o que suscitará um momento engraçado no livro. Quando Pedro toma conhecimento da traição da esposa desafia Dolokov para um duelo e acaba por dar-lhe um tiro que embora superficial tem repercussões para a sua imagem no circulo da nobreza. Pedro tenta deixar a mulher e vai alistar-se a uma seita religiosa para “sossegar” a sua mente inquieta.

Apesar desta insegurança da personagem reconheço um pensamento iluminado em Pedro que não sabendo o que fazer com tanto dinheiro vai dispensar parte da sua fortuna com os seus empregados.

Aqui existe outra parte que me agradou no livro – o segundo encontro de Pedro e André, na propriedade do Bolkonski. Pedro conta ao amigo estas ideias emancipadoras, a sua preocupação com o bem estar dos seus associados. André goza com o amigo, desaprova estas ideias, contudo após esta conversa André faz o mesmo nas suas propriedades e acaba por trabalhar para o estado na redação de leis referentes ao direito das pessoas. 

Existe um desencontro entre a estabilidade de cada uma destas duas personagens, quando vemos Pedro com ideias emancipadoras vemos André resignado, quando André começa a ter as mesmas preocupações que o amigo temos um Pedro já noutro nível.

Nicolau apresenta um dos momentos que mais gostei referente à guerra. Ele vê o camarada – Denissov envolvido no roubo de mantimentos. Esta situação é reprovada pelo general e Nicolau tenta interceder a sua influência em favor do amigo, mas em vão. Para fugir às consequências dos seus atos, Denissov aproveita o seu ferimento em batalha, para se hospedar numa enfermaria da campanha militar. Aqui vemos uma descrição do que eram os hospitais de campanha, o que nos causa muita confusão. Nicolau descreve os mortos, os feridos e os amputados, o cheiro a podridão referentes de uma dor física causada pela defesa das ideias implícitas na guerra e na defesa do país. Após o acordo entre o imperador Alexandre (Rússia) e Napoleão temos o pensamento mais genuíno da personagem do que foram estes momentos – de que serviu tanta dor, tantos mortos e tantos feridos se no fim da guerra somos todos amigos? 

Nicolau apresenta o desconforto inicial da convivência com os franceses logo após a negociação entre os dois imperadores. 

Este acordo entre os dois imperadores não agoira nada de bom para o segundo volume do livro. Napoleão declara guerra à Áustria (que tinha sido aliado da Rússia) e a Rússia de forma a manter a amizade com Napoleão, decide quebrar a aliança com a Áustria e participar da guerra a favor da França.

Últimas considerações

Houve algo que ao longo do livro me intrigou bastante, uma vez que a guerra contra os franceses é o foco inicial do desenrolar dos acontecimentos, em que vemos as personagens contra o imperador Napoleão a alistarem-se à campanha militar para combaterem estas invasões francesas e ao mesmo tempo observamos a contradição das mesmas no que se refere aos hábitos sociais adquiridos – falam francês para se diferenciarem do povo e o maior elogio que podem indicar a uma mulher é compará-la a uma dama francesa.

Gostei muito deste primeiro volume de Guerra e Paz, é uma obra complexa, cheia de enredos e de personagens mas de fácil leitura e de fácil compreensão. É sem dúvida uma obra que devemos ler. Temos personagens muito diferentes e estou curiosa por perceber o que acontecerá às personagens no segundo volume.

Fátima Costa

Fátima Costa

Educadora Social, desportista por hobby e leitora por paixão.

Este é um espaço de partilha de opinião acerca das leituras que realizei e que tem como objetivo a estimulação da vossa leitura.

Fátima Costa

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